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Aquela noite, daquele mês de final de Outono estava insuportável e medonha. Os ventos varriam os telhados, os raios interrompiam a escuridão, os trovões impediam o sono das pessoas e as chuvas lavavam tudo à sua volta. No céu negro, até a lua se tinha recolhido para se abrigar da tempestade. Nada se vislumbrava. Só trevas. E medo, muito medo. Quando, de repente, uma luz apareceu a piscar… Não, não era uma estrela perdida. As estrelas não tinham saído de casa nessa noite com receio de serem levadas pelo vento furioso. A “coisa” foi-se aproximando e ficou iluminada por um raio mais luminoso. Era uma nave espacial carregada de marcianos curiosos e aventureiros que queriam explorar mundo. Tiveram azar, coitados! Logo na sua primeira expedição, foram apanhados pelo temporal que tinha intenções de se demorar por aqueles sítios. Desorientada, a nave acabou por descer mais do que devia e foi empurrada para o planeta Terra, acabando por cair exactamente no átrio duma enorme biblioteca. Depois de se refazerem do susto e de verificar que não havia nenhuma antena partida, nem cabeças rachadas, os marcianos decidiram sair para ver onde estavam. Viram-se perdidos num mundo que não era o seu. Montes e montes de letras dançavam à sua volta, fazendo círculos de sabedoria e dando-a a beber, num simples gesto de leitura. Olharam em volta, um pouco a medo, e as capas coloridas daqueles poços de saber pareciam formar o arco-íris. - Onde estamos? - Que sítio é este?bibliotecária - Porque é que paramos? No entanto, os marcianos não encontravam respostas, não sabiam onde estavam. – Segundo os meus cálculos este é o planeta Terra – disse um, com ar de cientista, utilizando uma máquina muito esquisita, cheia de fios que lhe dava informações espaciais. – Aterrámos de emergência, nem tivemos tempo de ver onde… – Que lugar esquisito!... Fez-se silêncio. Mas havia um que sabia onde se encontravam. – Isto é uma biblioteca. Os humanos consideram este local como um centro de cultura, onde há grandes livros sobre a vida do Homem, a origem da Terra, o corpo humano, a Natureza… – Acho que temos ali um aparelho que descodifica livros. Querem saber o que lá está escrito? – perguntou Joan, o marciano mais informado. – Claro! Vamos buscar o aparelho. Enquanto uns procuravam livros, outros foram buscar o aparelho que se encontrava guardado num canto da nave, para poderem traduzi-los. Esse aparelho era semelhante a um computador, cheio de teclas, botões, luzes que faiscavam cores por todos os lados e fazia uns ruídos estranhos. Descodificava, ou seja, traduzia para a linguagem dos marcianos, um livro com 498 páginas em apenas 1 minuto e 19 segundos. Incrível, não é? Já que tinham caído ali, os marcianos ficaram cheios de curiosidade em saber tudo acerca do planeta onde estavam, por isso procuravam livros que lhes dessem essas informações. Um marciano, aparentemente mais velho, de aspecto bizarro e, como todos os outros, verde, com duas antenas, olhos grandes e pretos, que se deslocava de forma muito lenta, aconselhou: – Se queremos saber mais sobre este planeta, devemos procurar informações nos livros de História. – História?! O que significa História? – História é uma área que explica, essencialmente, o passado do Homem. – Vamos começar! Começaram por livros da Idade da Pedra. Imaginaram as grutas, as peles, os animais ferozes e a grande descoberta do fogo! Estavam entusiasmadíssimos com tudo o que liam e folheavam todas as páginas avidamente. Que mundo maravilhoso tinham eles casualmente encontrado! Mas, estavam doridos devido ao enorme trambolhão e custava-lhes, ainda, saborear tão preciosa e recente descoberta! Entretanto, um grupo afastou-se e descobriu livros sobre dinossauros. À medida que iam lendo, comentavam sobre as várias espécies destes seres pré-históricos, tais como mesossauros, velociraptores, triceraptos e, ainda, spinossauros. Um dos marcianos que se tinha isolado dos outros andava por ali, nervoso. Deu uns passos e embateu contra uma estante. Duma prateleira, caiu um livro cuja capa tinha uma imagem que lhe era muito familiar. Era um livro sobre extraterrestres que, prontamente, mostrou aos seus amigos. Entreolharam-se e interrogaram-se. Como é que os humanos sabiam da sua existência? E o que pensariam? Seriam bem-vindos se, naquele momento, alguém desse com eles, ali, na biblioteca, a ler e a aprender tanto sobre a vida na Terra? Aproveitaram, então, para investigar e descobrir que opinião tinham os humanos sobre eles. - Os terrestres consideram-nos muito inteligentes! – referiu Joan. - E com uma tecnologia muito avançada! – exclamou outro. - E, a julgar pelo que pudemos observar e comparando com a forma como preservamos o nosso planeta, somos mesmo muito mais inteligentes do que eles. - E mais educados e mais preocupados e menos egoístas – comentou, entretanto, o marciano mais jovem do grupo, corando até à ponta das antenas o que, tratando-se de marcianos, significa que ficou tão verde como uma alface. Começaram, então, a comentar o que viram antes da queda e que não lhes agradou nem um bocadinho. O estado em que se encontrava o planeta Terra era aterrador: o aquecimento global, forte poluição, a extinção de várias espécies de animais e plantas, a destruição de zonas selvagens… De facto, no seu planeta estes fenómenos não se verificavam pois sabiam como protegê-lo devidamente. E estavam bem conscientes que protegê-lo era, antes de mais, proteger o seu próprio bem-estar. Por isso, vários grupos de marcianos faziam tantas vezes incursões por esse espaço fora, para poderem tirar conclusões e ajudar. Um dos marcianos que, aparentemente, não seguia a conversa porque esquadrinhava atentamente todos os armários da Biblioteca, viu, ao longe, uma estante com uma placa que dizia “Astronomia”. Logo se sentiu aliciado, como se um íman o puxasse, e aí se deslocou. Imediatamente pegou num livro que, à primeira vista, relatava a ida dos americanos à Lua. Excitado com a descoberta, correu em direcção aos outros para lhes mostrar o livro que logo foi descodificado. - Não posso crer!!! – exclamou Joan. Estes humanos são completamente loucos e irresponsáveis! Estão a dar cabo da Terra e agora, querem, também, estragar a Lua? Subitamente, Joan teve uma ideia sensacional: podiam fazer cartazes e deixar os seus livros traduzidos com muitas informações e conselhos sobre como proteger e preservar o planeta. Todos concordaram e puseram mãos à obra. Era quase manhã, os extraterrestres decidiram partir para o seu planeta pois tinham medo da luz. Puseram a nave, de novo, a funcionar e ouviu-se um som irritante e persistente saído de um objecto com luzes que acendiam e apagavam. - É aquele sistema que detecta pessoas! – disse Joan para os restantes. Afinal, era apenas um alarme que, repentinamente, começou a gritar estridentemente, como se quisesse anunciar ao mundo o que se tinha passado durante aquela noite. - Vamos embora antes que o dia nasça e apareça alguém que não nos compreenda! Todos concordaram que estava na hora. A tempestade tinha abrandado e não seria perigoso partir naquele momento. A nave não tinha sofrido problemas de grande monta e estava pronta para arrancar. Quando a polícia e os funcionários da biblioteca lá chegaram, depararam-se com todos os cartazes, cuja autoria desconheciam, e com uma pilha de livros, fortemente ilustrados, que mostravam imagens chocantes de planetas destruídos por falta de zelo e maus tratos. Ninguém, na Biblioteca, tinha sido encarregado de fazer os cartazes e, quanto aos livros ali espalhados, não pertenciam à biblioteca e nem sequer estavam catalogados. Quando fecharam as portas, na véspera, não havia lá nada. No entanto, o que lá estava escrito era extremamente importante, oportuno e esclarecedor. Acharam estranho mas, já que ali estavam, não iam desperdiçá-los. Os responsáveis por aquela biblioteca que recebera tão estranhos leitores reuniram e tomaram uma sábia decisão. Distribuíram os livros pelas bibliotecas do país e eles foram estrategicamente colocados na entrada de cada uma. Parecia que estavam enfeitiçados pois cada leitor que entrava na biblioteca sentia-se atraído e, imediatamente ia folheá-los. As reacções eram espantosas pois as imagens dos livros provocavam um verdadeiro efeito de choque. Posteriormente, criaram um site onde foram publicados os livros digitalizados para poderem ser lidos via Internet, em todo o mundo. Espalharam os cartazes pela cidade e mandaram SMS e e-mails a todas as pessoas que conheciam. Estas, por sua vez, mandaram mais SMS e mais e-mails e uma grande cadeia em prol do planeta acabou por se instalar na Terra que, com o tempo, ficou mais limpa, mais pura e se tornou num enorme espaço muito agradável para se viver. No seu planeta, os marcianos continuaram a vigiar os terrestres. Ficaram contentes com o desenrolar dos acontecimentos e, sempre que algum país cometia alguma atrocidade contra o ambiente, enviavam fortíssimos sinais de alerta que obrigavam a que, imediatamente, se tomassem providências para a consertar. Meia volta provocavam um tufão, volta e meia um tsunami, outra meia, ondas de calor ou um vulcão que explodia sem aviso prévio e o planeta ficava a arder ou afogado na sua própria água. E, de novo, os livros espaciais eram colocados nas entradas das bibliotecas para ensinarem as pessoas a respeitar a Natureza. Felizes, os marcianos deram por muito bem empregue aquela grande queda na biblioteca. Afinal, tinham aprendido muito com os livros que descodificaram e leram e, sobretudo, tinham ensinado os humanos a crescer, tornando-os mais responsáveis e preocupados. Cresceram eles e o planeta Terra também. Turmas dos 7.º e 8.º anos da Escola EB 2,3 de Arrifana, Santa Maria da Feira Enviado pela professora bibliotecária, Ana Paula Oliveira.
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